
Um gesto que há cem anos, no último Parlamento monárquico ou no primeiro republicano, passaria despercebido a três quartos dos presentes.
Um gesto que há cinquenta anos, na Assembleia Nacional salazarista, seria impensável, e que a acontecer seria sempre abafado pela censura.
Um gesto que há vinte anos não apareceria na televisão estatizada, ficando remetido para os jornais do dia seguinte como mais um episódio do debate parlamentar.
Um gesto que há dez anos teria feito as delícias dos noticiários de todos os canais, forçando o Governo a emitir um comunicado e levando a uma cadeia de reacções que talvez originasse uma demissão nas 24 horas seguintes.
Um gesto que há dois anos teria sido notado e comentado por blogs ainda durante o debate, chegando já amplificado aos noticiários e aos programas de comentário político, que forçariam a uma reunião de emergência para decidir a demissão nessa mesma noite ou na manhã seguinte.
Um gesto que esta semana foi publicado em vídeo e fotografia em poucos minutos na Internet. Que foi comentado em directo no twitter por centenas de cidadãos, em diálogo com os deputados na Assembleia. Que foi quase instantaneamente reconhecido por todos os agentes políticos como um ultraje intolerável à democracia e ao Parlamento. Um gesto que tornou a demissão imediata do ministro inevitável – porque a irrupção não-filtrada da opinião dos cidadãos comuns a isso obrigou.
Os mass media são ainda os principais fornecedores de informação, mas já não controlam a expressão da opinião pública. Esta mudança tornou o debate político mais participado e transparente. Mas também mais imediatista e mais feroz. Apesar de haver muitos deputados no twitter, os políticos portugueses ainda não apreenderam as implicações desta comunicação desintermediada. É urgente que aprendam a lidar com o “admirável mundo novo” que aí está. Se não querem ser levados na enxurrada que colheu Manuel Pinho.
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