
sexta-feira, março 04, 2011
quinta-feira, novembro 25, 2010
UM FUNERAL VIVO NOS CAMINHOS DO CINEMA PORTUGUÊS_O DVD de Um Funeral à Chuva pode ser encontrado a partir de 7 de Dezembro na Fnac e Worten


Quando se aproxima a data de lançamento do DVD no mercado, marcado para o início de Dezembro, o filme Um Funeral à Chuva volta a marcar o seu lugar no cinema português. Depois de ter sido produzido pela empresa portuguesa Lobby Productions sem os habituais subsídios ou apoios financeiros da grande maioria das produções nacionais, de ter conseguido distribuição nacional através da Zon Lusomundo e de ter sido o 3º filme português com maior número de espectadores em 2010, o filme de Telmo Martins obtém agora o reconhecimento num dos mais importantes festivais de cinema português.
O DVD de Um Funeral à Chuva pode ser encontrado a partir de 7 de Dezembro nas principais lojas Fnac e Worten do país.
Um Funeral à Chuva é um filme do jovem realizador Telmo Martins, com produção de João Feitor e Orlandina Veiros, fotografia de Pedro Azevedo, e argumento original de Luís Campos. Nos principais papeis conta com interpretações de Pedro Górgia, Alexandre da Silva, Pedro Diogo, Sílvia Almeida, Luís Dias, Sandra Santos, Hugo Tavares e João Ventura.
Sinopse:
Um grupo de antigos estudantes universitários reencontra-se na cidade onde havia estudado, devido à morte de um deles. Na obrigação de satisfazer o último desejo deste, o grupo inicia uma jornada de auto-descoberta sobre a essência da amizade verdadeira. Contudo, há dez anos que não se viam...
Sobre a Lobby Productions
A Lobby Productions é uma empresa portuguesa de produções audiovisuais, criada em 2006 pelos sócios Telmo Martins, Orlandina Veiros, João Feitor e Luís Dias. Para além de spots publicitários, videoclips, filmes institucionais e vários serviços de pós-produção, a empresa dedica-se à produção de séries de televisão, curtas-metragens e longas-metragens, onde se destaca, entre outras, a produção do filme Um Funeral à Chuva.
www.lobbyproductions.com
www.caminhos.info
.......................

Atentamente, Lília Varejão Dep. Marketing SEDE:
Lobby Productions – Full Service Production House Parkurbis
Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã 6200-865 Covilhã
Telf.:+351275957009 fax:+351275957005
geral@lobbyproductions.com
www.lobbyproductions.com
Para mais informações contactar:
Sérgio Lopes
Responsável de Marketing da Lobby Productions
Email: sergiolopes@lobbyproductions.com / Tel: 275957009
terça-feira, junho 22, 2010
terça-feira, junho 15, 2010
Um funeral à chuva - entrevista com o guionista Luís Campos
Dia 3 de Junho estreia em 20 salas do País o filme “Um funeral à chuva”, escrito por Luís Campos e realizado por Telmo Martins.
É um dos primeiros filmes a ser realizado em Portugal segundo um modelo independente, sem apoios do Estado, recorrendo apenas a apoios de empresas privadas e à boa vontade de todos os envolvidos, que aceitaram trabalhar em função de dividendos futuros. Apesar disso conseguiu convencer os distribuidores e exibidores a estreá-lo em cerca de vinte salas em todo o país.
Aproveitei a oportunidade para fazer uma pequena entrevista com Luís Campos, o autor do guião.

O realizador Telmo Martins (esquerda) e o guionista Luís Campos,
durante as filmagens
Fala-me um pouco do projecto. Como surgiu o “Um Funeral à chuva”?
Luís Campos
João Nunes
E o Funeral, como surgiu?
Luís Campos
João Nunes
Como é que entraste no projecto?
Luís Campos
João Nunes
Um primeiro esboço de quê? Do novo guião? Ou uma sinopse?
Luís Campos
Sim. O guião. A 1ª versão foi feita em 3 dias!!
João Nunes
P***! Não posso pôr isso no site!
Luís Campos
?(risos)
Eu sei! Mas é a verdade. Isto foi em Junho.
João Nunes
Continua…
Luís Campos
João Nunes
Que versão do guião rodaram? Quantas depois da primeira?
Luís Campos
João Nunes
Agrada- me essa ideia. Indie na forma de produção, mas preocupado em encontrar uma audiência.
Luís Campos
(risos)
Houve muitas alterações ao guião durante a rodagem? Cenas novas, alterações de diálogos, improvisações?
Luís Campos
João Nunes
Deve ser complicado estar nessa dupla função de 1º assistente e guionista.
Luís Campos
Muito mesmo, não volto a fazê-lo, porque apesar de eu e o Telmo termos tido muita coisa em acordo há sempre algumas discórdias e, enquanto 1º assistente, tens de saber levar a opinião dele avante e motivares uma equipa em função disso.
João Nunes
Mesmo que não acredites a 100%.
Luís Campos
Yep. Tens que saber fazer os outros acreditar e acredita que não é fácil.
João Nunes
Acredito, sim.
Luís Campos
Muito menos quando as pessoas estão de borla e alguns sacrifícios estão constantemente a ser postos em causa.
João Nunes
Luís Campos
Luís Campos
Continuando nos improvisos…
João Nunes
Sim…
Luís Campos
João Nunes
O tudo ou nada.
Luís Campos
João Nunes
Um bom plano sequência é sempre um tour de force.
Luís Campos
João Nunes
Tiveste isso em atenção na escrita? Pensar em sítios que conhecias e sabias poder vir a utilizar?
Luís Campos
João Nunes
Como é que descreverias este filme? O género, o tom?
Luís Campos
Comédia dramática.
João Nunes
A famosa dramedy…
Luís Campos
Sim, muito por aí.
João Nunes
É um território difícil. Assustou-te?
Luís Campos
João Nunes
E o lado comédia, funciona? Tem de haver equilíbrio.
Luís Campos
João Nunes
Por falar em ante-estreia, como surgiu a ideia de fazer uma para a selecção?
Luís Campos
João Nunes
Acho isso fantástico.
Luís Campos
Eu costumo dizer que estamos todos à procura da 3ª via, entre o cinema de autor e o “americano”. Achas que pode ser esta?
Luís Campos
João Nunes
Boas referências.
Luís Campos
Mas na avaliação académica, uma vez que era inserido no projecto final de Mestrado, houve opiniões distintas, no painel avaliativo. Houve comparações a Floribella e eu fiz questão, na defesa do projecto, de ilustrar as operações semióticas que tivemos, enquanto criativos e autores do filme. Os defensores do termo “floribella” acabaram por ter que concordar porque essa profundidade está lá se o espectador quiser ir mais além. O Kubrick tem o mérito reconhecido porque quem o analisa sabe ir mais além, perceber as conotações, explorar essa profundeza imagética, textual, ou estética. Obviamente que não me estou a comparar ao Kubrick mas sim a tentar enaltecer a riqueza do cinema, da ambiguidade cinematográfica e, ao mesmo tempo, reconhecer a complexidade “interpretativa” do cinema que é diferente aos olhos de cada um. Eu lembro-me, por exemplo, do caso “The Big Lebowski”; há poucos filmes na história que me saibam fazer rir tanto mas conheço muita gente que não consegue sequer esboçar simpatia pelo filme. O humor é dos territórios mais complexos no cinema.
João Nunes
Mais uma pergunta: já há planos para “Um casamento à chuva” ?
Luís Campos
(risos)
Sequela não existirá.
João Nunes
E outros projectos?
Luís Campos
João Nunes
Queres dizer mais alguma coisa?
Luís Campos
João Nunes
Boa mensagem para terminar. O País agradece e eu agradeço.
“Um funeral à chuva” pode ser visto nestes cinemas a partir de 3 de Junho:
- Alvaláxia
- Amoreiras
- Colombo
- Vasco Da Gama
- Dolce Vita Miraflores
- Almada Forum
- Oeiras Parque
- Dolce Vita Porto
- MarShopping
- NorteShopping
- Parque Nascente
- Dolce Vita Douro
- Aveiro Forum
- Dolce Vita Coimbra
- Viseu Forum
- Braga Parque
- Guarda Vivacine
- Covilhã SerraShopping
- Espaço Guimarães
- Maia Vivacine
Aqui fica também um pequeno vídeo comprovativo do apoio da Selecção Nacional. Esperemos que daqui a pouco, depois do jogo com os Camarões, este apoio ainda seja uma mais valia ;)
Atualização: o meu colega e amigo Jorge Vaz Nande, que a certa altura é mencionado nesta entrevista, publicou um pequeno artigo no seu blogue, esclarecendo a sua participação no projeto. Recomendo a leitura.
terça-feira, junho 01, 2010
Funeral à Chuva é «..uma lufada de ar fresco» OPINIÃO: Lauro António
Surgiu no cinema português um meteoro a que vale a pena dedicar atenção. Trata-se de um filme de todo em todo invulgar. Quem iria imaginar ver surgir a produção de uma longa-metragem de ficção numa cidade como a Covilhã? A interioridade não costuma dar destas coisas, ainda que a Selecção Nacional lá esteja a estagiar com vista ao Mundial da África do Sul. Mas “Um Funeral à Chuva” é decididamente outra coisa. É claro que o facto de existir na Universidade da Covilhã, de há uns anos a esta parte, um curso de cinema deve ajudar a compreender o fenómeno, tanto mais que o realizador, Telmo Martins, é um ex-aluno dessa Universidade da Beira Interior. Mas, mesmo assim, o aparecimento deste filme é um fenómeno novo
Estamos já fartos de filmes, ditos “comerciais”, que não passam de operações financeiras montadas à custa do cidadão e dos seus impostos e que se destinam apenas “realizar capital”. De modo fácil. Estilo casa de passe. Normalmente nem isso conseguem e nunca ultrapassam a vergonhosa situação de um oportunismo indigente, explorando sexo e violência, actores conhecidos e vedetas de televisão ou outras que aceitam despir-se ou voltearem para a multidão.
“Um Funeral à Chuva” quer ser um filme de apetência popular, quer ser visto, mas não abdica nem da dignidade, nem da honestidade, nem da sinceridade. É feito por jovens que querem falar das suas vidas, dos seus problemas, das suas dúvidas, das hesitações, das alegrias e das tristezas, das frustrações e dos sonhos não realizados, das reuniões pela noite dentro, dos copos e dos fuminhos que instilam uma boa disposição artificial e passageira que, todavia, lhes permite encarar o futuro com alguma certeza, ou sem certeza nenhuma, é mais o caso, mas com alegria de viver. È tudo muito complexo, já se sabe, os caminhos nem sempre serão os mais correctos, nem tudo se faz como aconselha o senso comum, mas é assim na vida e também no cinema.
“Um Funeral à Chuva” não é um filme perfeito, longe disso, tem asperezas e fragilidades, mas é uma obra a que vale a pena dedicar tempo e atenção. Funciona um pouco como um “Amigos de Alex” à portuguesa e 50 anos depois. A estrutura assemelha-se, mas as conclusões são diferentes. Sete amigos reúnem-se na Covilhã para enterrar um antigo colega de universidade que morreu precocemente. Alguns deles não se viam há dez anos. A reunião serve para relembrar o amigo, para relançar os afectos, para estreitar os laços entre a comunidade. Serve também para, perante a morte, assumir a vida e a sua verdade. Aceitando frustrações e recusando mentiras.
O filme começa por apresentar as personagens, um escritor de viagens, uma cara da televisão, daquelas que ocupa as madrugadas a entreter os espectadores com aldrabices de concursos infindáveis, dois empregados de um videoclube, uma engenheira, um músico, um professor universitário. As apresentações são sincopadas, deliberadamente desligadas, seguem-se os percursos até à Covilhã, a noitada de convívio, um velório pouco ortodoxo (que julgo muito extenso e repetitivo, com cada um dos amigos a falar em privado com o morto, tornado quase totalmente redundante este episódio) e finalmente o enterro numa das faldas da serra.
Todo o filme assenta nas capacidades técnicas dos artífices (realização escorreita, boa fotografia, de Pedro Azevedo, densa e impressiva, boa montagem, som não muito brilhante, pelo menos na noite da ante-estreia, muito estridente e gritado) mas, sobretudo, na representação. E o elenco é bom, na sua globalidade, mesmo muito bom nalguns casos. Alexandre Silva, Pedro Gorgia, Luís Dias, Sandra Santos são boas apostas, mas também Hugo Tavares, Pedro Diogo, João Ventura, Sílvia Almeida, e as consagradas Adelaide João e Célia Silva.
De Telmo Martins, o realizador e antigo estudante da UBI, nada conhecíamos, apesar de algumas curtas-metragens suas anteriores terem sido bem recebidas nalguns festivais, nomeadamente “Crosswalk”, que sobressaiu no concurso mundial do portal canadiano “iStockphoto” e premiada igualmente no Festival de Tróia, em 2007.
Esta é uma produção da Lobby Productions, sediada na Covilhã, que merece incondicionalmente a atenção do espectador português. Este é um retrato de uma boa parte da juventude portuguesa neste início do século XXI, retrato que será de todo o interesse questionar, discutir, polemizar, mas não ignorar. No mínimo, é uma lufada de ar fresco na panorama cinematográfico nacional que, a calcular pelas reacções da sala cheia do São Jorge, na noite da ante-estreia, pode vir a ser um caso muito sério de adesão de público. Assim tenha tempo para o “passa palavra”, depois do dia da estreia.
segunda-feira, maio 31, 2010
«Um Funeral à Chuva»: as reacções na antestreia
Totalmente financiada sem o apoio do Estado, a primeira longa-metragem de Telmo Martins recolheu um consenso de opiniões positivas na antestreia em Lisboa, com o elogio à amizade a ser particularmente louvado.

Zé é hoje professor universitário. Marco, um famoso cronista de viagens. Rui é empregado num clube de vídeo e namora com Vasco. André tenta viver da música que faz e a sua irmã Susana é uma Engenheira bem-sucedida. Diana queria ser actriz, mas tornou-se um dos rostos da televisão nacional, graças ao concurso que apresenta. Em comum, têm o facto de terem partilhado a mesma experiência académica e os 10 anos de separação que prevalecem desde o momento em que saíram da Covilhã.
No dia em que João, amigo comum de todos desde os idos tempos universitários, falece, todos terão que responder ao repto que este lançou enquanto últimos desejos – que fosse enterrado na Serra da Estrela e que o grupo de antigos colegas se reunisse no dia do funeral, para que imortalizassem o momento. Mas como conseguirão os membros do grupo fazer justiça ao desejo de João neste reencontro forçado? Como recuperarão as memórias de um colega que não primou por evidenciar o seu protagonismo? E, acima de tudo, que peso terão os 10 anos que os separam?
«Um Funeral à Chuva» é uma produção invulgar no seio do cinema português: foi totalmente feita sem o apoio do Estado e de quaisquer outras entidades, sendo financiada apenas pela empresa de que é sócio o realizador, com os actores e demais participantes do filme a serem pagos com os eventuais lucros do mesmo. O responsável é o cineasta Telmo Martins, que conseguiu convencer a distribuidora Lusomundo a estrear o filme com 20 cópias, um numero impressionante para fitas nacionais.
cinema.sapo.pt
sexta-feira, maio 21, 2010
Baú: Chasin’ The Bird_royalcafe.wordpress.com
O Chasin’ começou algures numa já distante noite de 2007. Talvez ainda em 2006, não me recordo bem. Nasceu da junção das ideias de 6 alunos de Cinema, na UBI. Todas em função de um projecto final de curta-metragem, de grupo. Éramos nós: Aqui o anfitrião do espaço, o Humberto Rocha, o Hugo Moreira, o João Gazua, o Alexandre Banhudo e o Tiago Moreira. 6 amigos. 6 grandes amigos.
No momento em que rodámos o Chasin’, a maioria de nós já tinha alguma experiência prática em outros trabalhos de curta-metragem. Quer no “Rupofobia” ou no “Utensílios de Amor”, ambos do Telmo Martins; quer no “Horizonte”; ou até no “Isquémia”, do Hugo Tavares. Praticamente todos nós havíamos desempenhado distintos cargos e funções em cada um desses projectos cinematográficos. Semanas antes da rodagem do Chasin’ havíamos participado, também, quase todos noutro trabalho que, com certeza, recordamos com nostalgia – “Santuário”, de José Ratinho (projecto de outro grupo de grandes amigos nossos).
Acontece que quando acertámos a composição do grupo (suponho que algures entre Outubro e Dezembro de 2006), tínhamos bem presente uma fasquia, pelo menos a nível estético, do que pretendíamos atingir com o projecto a que nos proporíamos dedicar. Tínhamos, também, e principalmente, uma enorme ambição de ir mais além do ponto de vista criativo. Quebrar barreiras narrativas, linguísticas e estéticas da arte cinematográfica. Foi, assim, definido o objectivo – fazer uma verdadeira obra de arte cinematográfica. Com a plenitude dos valores intrínsecos a que tal se possam atribuir. Obviamente que, há 4 anos atrás, ainda todos éramos mais patetas do que hoje o somos. E que, com 20, 21, ou 24 anos, todos nós pensávamos que o nosso precário conhecimento cinematográfico era mais do que suficiente para nos permitir criar uma tal obra que se predispusesse a ir mais além do ponto de vista criativo. Queríamos ser autores, no sentido lato da palavra. E não podíamos estar mais redondamente enganados.
Contudo, e é com eterno orgulho que o reconheço, com “Chasin’ The Bird” conseguimos aquela que, porventura, será a nossa obra mais artística enquanto pretensos cineastas. Por mim falando, creio que nunca mais conseguirei fazer algo tão alternativo, tão intelecto (não do ponto de vista elitista, mas da perspectiva do entendimento resultante de uma interacção entre mente e espírito), tão valiosamente artístico como conseguimos em Chasin’ The Bird. Pelo bem e pelo mal que dessa afirmação resulte, ela é, aos meus olhos, absoluta.
Descrevo agora um pouco do processo.
Juntámo-nos então, munidos de ambições. De pretensões (e este aspecto é que pode ser fatal, no ponto de vista criativo). Quisemos ser grandes. Fazer algo grande. E iniciámos o brainstorming. Houve manifestações de interesse em abordar a toxicodependência. A imigração. A música. Principalmente a música – foi o nosso primeiro grande consenso. Inevitavelmente, Miles Davis (e quem éramos nós, putos de uma geração que se enfrasca em discotecas abundadas de Bobs Sinclars, para pensar sequer em abordar Miles Davis??). Sentimos. Miles Davis era o caminho. Tornou-se para nós obrigatório abordá-lo. Homenageá-lo. Todo ele é música. Uma quota parte da música é ele. Acabámos por delinear uma narrativa com um toxicodependente, amante de música. E com um imigrante de leste que vivia no quarto ao lado.
E decidimos que o filme abordaria uma questão séria – o que será mais forte: o vício ou o prazer?
Chegámos ao consenso que a via seria explorar essa questão. Ilustrar uma narrativa para estabelecer uma expressão de um paradigma aos olhos do espectador.
Carlos seria um toxicodependente ligado ao passado pela relação musical herdada do pai. Uma grafonola simbolizaria o valor material dessa relação. Um poster mítico do Miles também (o olhar de Corbjin é, por si só, um personagem de qualquer espaço), em menor escala. Um dealer forçaria Carlos a desfazer-se desse objecto que, de certa forma, seria o principal elemento da relação deste com o passado que o reconfortava. No preciso momento em que Carlos cede à ordem do Dealer (e à força do seu vício), o imigrante apareceria com um trompete. Carlos, inconscientemente, adoptaria o trompete enquanto objecto de substituição. Enquanto símbolo desse conforto perdido. Na sua cabeça, o som do trompete soava. Os acordes com que o pai o educara. Agora, ali, do outro lado da parede. O conforto voltara e Carlos rejubilava. A consciência de Miles omnipresente (também Miles fora um heroinómano). O estímulo, aos ouvidos de Carlos, seria o bater da porta. Imigrante no quarto, conforto ao alcance. Imigrante fora, desordem incontrolável. A ressaca. A ausência de conforto. O consumo, harmonia. O consumo sem estímulo (imigrante fora do quarto, ausência de música), a desordem. E, por aí, perguntar ao espectador: Será que é mais forte uma ressaca da ausência de heroína ou da ausência de música (símbolo do conforto, da motivação). Encontrámos, para dar corpo a essa questão, uma brilhante expressão numa brilhante letra dos Clã: “Será que o BEM nos faz sofrer, por nunca o vermos existir em nós?”.
Carlos sofreria essa angústia dupla, em espaço circunscrito. Uma jornada interior, pela busca de conforto. O eterno dilema.
E, ao contrário do que este formulara, o Imigrante não tocaria acorde algum no trompete. O objecto destinava-se para oferta ao filho. Para envio à terra natal. Também, para ele, o objecto possuiria um valor metafísico. Espiritual. Do sentimento de saudade pelos seus. De esperança. De crença. De alegria. De tristeza. Também, para ele, o objecto era complexo. Esse ambíguo objecto – o simples instrumento de Miles Davis.
Até aqui, tudo bem.
A coisa era mesmo brilhante. O próprio símbolo dos CTT era um cavaleiro branco a tocar trompete. O imigrante terminaria o filme a dirigir-se aos CTT. Cavalo… Trompete… Tudo fazia sentido. Relações incríveis que nós descobríamos. Sentimo-nos verdadeiros autores cinematográficos, como jamais sentiremos. Estávamos a conseguir algo mais profundo do que alguma vez imaginámos. Mas foi aqui, neste preciso momento, que pecámos. Ao querermos ir além. De encontro a essa ambição que nos movia.
Esquecemos (ou passámos para segundo plano) a componente cinematográfica da obra. Enquanto produto que formula uma comunicação entre autor e espectador. Subvalorizámos o poder do código, em função da mensagem. Desrespeitámos a técnica, a linguagem. Em função da ideia. Do brilhantismo. Da arte.
E soubemos criar algo que se debruçasse na barreira da linguística e no poder da comunicação oral (a sequência em que o Imigrante fala ao telefone com a mulher e explica a sua situação e a representação do trompete aos seus olhos, com Carlos a espreitar, ansioso, descontrolado, ressacado com a ausência do conforto, da presença do Imigrante no quarto anexo), um exercício puro sobre a causa-efeito. Sobre a incomunicabilidade dos seres humanos. O que um diz e o outro não descodifica. O efeito adverso que tal provoca. Soubemos criar uma sequência que expusesse tal problemática. Mas não soubemos nós, enquanto autores, resolvê-la. Não soubemos descodificar o código de transmissão da nossa ideia ao espectador. Não tivemos arte, nem engenho, para que a mensagem passasse. E a comunicação fosse feita. Porque, em sentido primeiro, a arte cinematográfica é, e sempre será, um meio de comunicação. E não soubemos, assim, fazer com que a nossa causa obtivesse o efeito pretendido.
Como tal, não soubemos transmitir que, quando o Imigrante pousa o telefone, Carlos regressava ao quarto e aguardaria expectante pelo som da porta a fechar. Prepararia-se convenientemente para esse momento de conforto. A junção do consumo da substância com o estímulo do início musical (accionado pelo som da porta a fechar). Abriria a janela, para o fazer à luz do dia. Procuraria o momento perfeito. A perfeita harmonia (a transmissão da mensagem pretendida talvez seja agravada pela performance do Hugo e do uso que ele dá ao “garrote”, em jeito de forca – mas, após algumas visualizações do filme por terceiros, tal pormenor seria mesmo das coisas que mais agradava no filme, e optámos por mantê-la – a coisa estava mal resolvida e mais valia ter um pormenor que suscitasse reflexão na memória do espectador!). O Imigrante entraria no quarto sem fechar a porta, pegaria as chaves de casa e sairia, fechando a porta atrás de si. O estímulo em Carlos seria accionado neste momento (quando Carlos pensaria que o Imigrante se fechara no quarto, este acabava de sair – nova problemática da causa-efeito, a barreira da incomunicabilidade entre 2 espaços distintos, 2 realidades distintas). Soaria música. Prevaleceria a harmonia, em Carlos. O Imigrante entrava nos CTT. Uma pomba branca entrava no quarto de Carlos. Um pássaro, símbolo máximo da liberdade. Carlos tentaria apanhá-la. Perseguiria a liberdade que estava ali à sua mercê. A liberdade (pássaro) fugiria, aos seus olhos. O bem de Carlos continuará a fazê-lo sofrer, por nunca o ver existir nele.
E, com o exercício, ofereceríamos ao espectador a possibilidade de reflectir na oportunidade que Carlos teve. E que nós pretendemos ilustrar, ao longo do filme. Ele teria tido a possibilidade de optar pelo prazer. Em detrimento do vício. Acreditámos que seria possível deixar essa mensagem de esperança, a quem passe pela problemática. Carlos não o conseguiu. Mas, aos nossos olhos, a libertação está ao alcance de cada um. Na dependência desse conforto, em detrimento da substância. Em calão simplista – Agarra-te à música. E livra-te da heroína.
E, pelo não domínio de toda uma linguagem cinematográfica, não conseguimos fazer com que o filme resultasse, do ponto de vista comunicativo.
Fomos brilhantes, continuo a dizê-lo. Conseguimos criar algo riquíssimo, em termos metafísicos. De valor artístico. Conseguimos criar algo muito mais profundo do que aquilo que inclusive temos noção. Mas que não comunica. Não é bem sucedido, na transmissão da mensagem. E com a mesma segurança que afirmo que jamais conseguiremos fazer algo tão profundo, tão rico do ponto de vista artístico, jamais pretenderei enveredar por uma via de recurso cinematográfico em função de um brilhantismo intelectual que não me possibilite comunicar com o público. Renegarei, a priori, qualquer criação minha que só aos meus olhos seja inteligível. Serei, sempre, e acima de tudo, um comunicador. Não posso admitir que, aos olhos da pessoa que mais contributo teve na minha educação cinematográfica, uma obra minha não seja passível de entendimento. É completamente anti-natura.
Muito por isso, por essa consciência, as minhas obras seguintes foram “Azeitona” e “Um Funeral à Chuva” (ainda que esta não tenha sido eu a realizar). Filmes complexos, à sua medida. Talvez menos intelectualizados que “Chasin’ The Bird”. Mas, certamente, mais perceptíveis. E, garanto-vos, é muito melhor sentir que tivemos um espectador emocionado, sensibilizado com a mensagem que transmitimos, do que alguém confuso, lutando consigo próprio para tentar perceber a mensagem que quisemos transmitir.
“Chasin’ The Bird” foi rodado entre Belmonte e Manteigas, creio que em Maio de 2007. Teve 5 dias de rodagem (90% passados no quarto de Carlos, que tão pouco higienicamente caracterizámos…), uma equipa de cerca de 15 pessoas e um orçamento de 600€. O Hugo Tavares, o Dmitry Bogomolov e o Luis Alçada foram irrepreensíveis, na forma como abraçaram este projecto. O Gonçalo Marques foi brilhante a personificar o ambiente do filme com as notas do seu trompete. Toda a equipa foi impecável, sensata e paciente num meio algo claustrofóbico como podem acreditar que é a desactivada pensão “Altitude”. Um enorme OBRIGADO a todos aqueles que contribuiram para o sucesso deste projecto e aos que, acima de tudo, o possibilitaram.
Lembro-me do dia em que fui com o Hugo Tavares a um Centro de Desintoxicação, na região, e da profunda conversa que tivemos com um “hóspede”. Por sinal, também ele havia cedido a guitarra que lhe havia sido oferecida pelo pai e que, de forma tão dolorosa, o remetia para os laços familiares perdidos. O seu testemunho foi importantíssimo para nós, enquanto processo criativo. O Hugo foi brilhante, nas suas qualidades de observador, a retirar todos os ínfimos pormenores que o fizessem incorporar sentimentos, expressões ou atitudes próprias de alguém consumido pelo vício da heroína. Foi algo que me marcou, enquanto criador. É importantíssimo, em cinema, utilizar os recursos possíveis do método Stanislavski. Em qualquer das fases do processo criativo. Seja na escrita, na planificação/decoupage, na representação. O bom autor é, acima de tudo, um performer. Um ilustrador. E o exímio é aquele que sabe caminhar nos terrenos que pisa.
Recordo inúmeras outras coisas, relacionadas com este projecto. Boas e más. Na sua grande maioria, dominam as positivas. E dominam com nostalgia. Hoje faria tudo igual, novamente.
Talvez, para mim, o maior contributo artístico das nossas vidas.
Sem dúvida, para nós, uma lição.
Uma enorme lição de cinema.
Que, aqui no Royal Cafe, vos tardia e reflectidamente confesso.
E que, ao reconhecê-la, mais me confronto com o panorama geral da produção cinematográfica portuguesa. Um panorama de egoísmo criativo, de incapacidade comunicativa consciente ou de facilitismo exasperado. Que precisa, cada vez mais, de encontrar um meio termo. Um meio termo que o promova. Que o aproxime do receptor. E que, acima de tudo, o glorifique na sua função primária – a comunicativa. Porque a Arte só existe se transmitida.
Deixo-vos também os vídeos do Making Of do Chasin The Bird, da autoria do génio de Leandro Silva.
Esta pequena pérola (o primeiro vídeo), por ele captada em plena rodagem, é o verdadeiro exemplo de como deve ser um Making Of – Um Filme dentro do Filme, A Tugalidade dentro de um Filme Tuga:
Filme, A Tugalidade dentro de um Filme Tuga:
Havia outro, que entretanto foi removido pelo Youtube… Parece que não havia direitos para o uso da música… Ainda que se tratasse apenas de um Making Of de uma curta de estudantes…
Volto em breve,
Entretanto há uma estreia nacional de “Um Funeral à Chuva”. 3 de Junho, num cinema perto de si!
quarta-feira, abril 14, 2010
sexta-feira, abril 09, 2010
NÚCLEO DE CINEMA DA UBI – EYE I APRESENTA

Dia 12 – 2ª Feira - 21:30h
“Uma Abelha na Chuva” (1972)
Realização: Fernando Lopes
Dia 13 – 3ª Feira - 21:30h
“E La Nave Va” (1983)
(O Navio)
Realização: Federico Fellini
Dia 14 – 4ª Feira - 21:30h
“Mat i Syn” (1997)
(Mãe e Filho)
Realização: Aleksandr Sokurov
Dia 15 – 5ª Feira - 21:30h
“Viskningar Och Rop” (1972)
(Lágrimas e Suspiros)
Realização: Ingmar Bergman
via facebook
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
Azeitona (Olive)_vídeo completo
Azeitona (Olive) from Luis Campos on Vimeo.
sábado, fevereiro 20, 2010
Horizonte (Horizon) by Luis Campos
(...) A pós-produção extendeu-se por 3 anos. Só em 2009 ficou finalmente concluído. Novamente as minhas desculpas a todas as pessoas que aguardaram com entusiasmo pela visualização do resultado final. Mas problemas de origens diversas e de formas sucessivas foram “atormentando” a conclusão deste projecto.
Agora chega à grande janela. Em primeira mão aqui no Royal Cafe.
Se sei que, hoje, enquanto guionista e realizador faria muita coisa diferente do que fiz nesse projecto, igualmente sei que, se tivesse a possibilidade de amanhã repetir a experiência, a decorrer de forma exactamente igual à que correu então, não rejeitaria nem um segundo.
E hoje voltaria a tentar adormecer com o mesmo nervoso miudinho que me dominou nessa já distante noite de Julho.
Podem acompanhar os vídeos do making of aqui. Obrigado por tudo, Ivo.
Volto a abrir o baú em breve. Até lá.
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Baú: Coisa Hindu_royalcafe.wordpress.com
"Aproveito, finalmente, e após o término do prazo de validade de submissão a festivais dos meus trabalhos cinematográficos previamente realizados, para apresentar, em primeira-mão, a disponibilização online dos mesmos.
Assim, será com uma mista sensação de orgulho e nostalgia que, pontualmente, os publicarei aqui no Royal Cafe.
Para celebrar o evento, deixo-vos com “Coisa Hindu”, uma curta-metragem produzida com carácter totalmente independente e inserida no âmbito de um exercício fílmico para a cadeira Géneros Cinematográficos (componente do Mestrado em Cinema, Realização, na UBI), em que se pretendia explorar o género de comédia negra."
Espero que gostem
Luís Campos
"Os meus mais sinceros agradecimentos a toda a gente que ajudou a tornar esta ideia possível, ao Tiago, ao Luis e à Inês que se pre-disponibilizaram a imortalizar essas caricatas personagens, aos The Guys From The Caravan por com tanto entusiasmo terem aceite o meu repto. Aos colegas que durante 3 dias respiraram Coisa Hindu e cujas contribuições não só possibilitaram como acresceram o nível qualitativo do projecto. Aos que apoiaram (espiritual e logisticamente), em especial o apoio incondicional dos meus pais. A todos aqueles que sabem que, por mais indirectamente que seja, estiveram relacionados com a concretização do projecto. E ao Abib. Porque mesmo sem perceber uma única palavra de português, conseguiu emprestar um carisma incrível à sua personagem e torná-la possível.
O Coisa Hindu foi rodado em Janeiro de 2008, em 3 dias e 2 noites (creio, já não me recordo com exactidão), integralmente na cidade da Covilhã e teve um custo de cerca de 150€, que permitiram pagar as despesas de deslocação do Tiago e da Inês.
Foi filmado em Mini-DV e integrou a sessão competitiva do Festival de Arouca 2008. Ganhou o prémio do público na MOSTRA UBICINEMA 2008, na categoria de trabalho extra-curricular. E teve a nota de 18 valores na cadeira em que se inseriu!!!
Hoje que o filme chega à janela global, é com um enorme alegria que espero que aqui e ali o filme vos consiga arrancar algum sorriso, por mais tímido ou azedo que seja.
Estejam à vontade para comentar. A vossa participação é o maior estímulo para esta divulgação.
O baú volta a abrir em breve. Até lá."
quarta-feira, fevereiro 17, 2010
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
quinta-feira, janeiro 14, 2010
Poder e liturgia em The Godfather de Francis Ford Coppola por António Fidalgo
quarta-feira, outubro 14, 2009
UBI CINEMA 2009 - Mostra / Jornadas_9 a 16 de Outubro 2009_Cinubiteca, Universidade da Beira Interior, Covilhã
Quarta 14
11h00 - Masterclass - Rui Poças
16h15 - Jornadas - Cinema em Portugês
- Magusto
21h00 - Mostra - Os Filmes da UBI
Quinta 15
11h00 - Masterclass - Patrícia Vasconcelos
14h30 - Escolas Convidadas
16h15 - Mostra - Filmes Livres
- Os Filmes de Pedro Azevedo
21h00 - Mostra - Os Filmes da UBI
00h00 - Festa
Sexta 16
11h00 - Masterclass - Lígia Lopes de Sousa Carreto
14h30 - Encerramento - Actividades 2010 + Entrega de Prémios
21h00 - Jantar de Curso
sexta-feira, outubro 09, 2009
UBI CINEMA 2009 - Mostra / Jornadas_9 a 16 de Outubro 2009_Cinubiteca, Universidade da Beira Interior, Covilhã

Sexta 9
11h00 - Workshop - Cinema e 3D
Segunda 12
14h30 - Abertura - Lição de Cinema: Paulo Branco
21h00 - Som e Imagem - Encontro: Miguel Clara Vasconcelos
Terça 13
11h00 - Masterclass - Ana Mendes
14h30 - Jornadas - Cinema em Português
21h00 - Mostra - Os Filmes da UBI
00h00 - Festa
Quarta 14
11h00 - Masterclass - Rui Poças
16h15 - Jornadas - Cinema em Portugês
- Magusto
21h00 - Mostra - Os Filmes da UBI
Quinta 15
11h00 - Masterclass - Patrícia Vasconcelos
14h30 - Escolas Convidadas
16h15 - Mostra - Filmes Livres
- Os Filmes de Pedro Azevedo
21h00 - Mostra - Os Filmes da UBI
00h00 - Festa
Sexta 16
11h00 - Masterclass - Lígia Lopes de Sousa Carreto
14h30 - Encerramento - Actividades 2010 + Entrega de Prémios
21h00 - Jantar de Curso



