quinta-feira, novembro 23, 2006

Chicken Charles - Uma visão literária...

Não me interessa em absoluto a sentença final, nem os juízos morais e éticos que lhe estão subjacentes, interessa-me objectivamente a análise teórica e, ou ontológica da sátira Chicken Charles, como fenómeno de identificação de um texto, projectado numa pessoa real, e a sua transferência para uma determinada realidade social. Apesar da similitude entre o dualismo escrita/realidade, não podemos esquecer que ela funciona num plano ficcional, por isso, a criação desse universo imaginário, por onde passeia Chicken, deve obedecer a uma liberdade total, como acontece em todos os textos de natureza literária. Extrapolar o texto para a vida real é no mínimo absurdo, para não dizer abusivo. Tudo não passa de uma pretensão idiota de inscrever esta história num conjunto de arquétipos, susceptível de atribuir verosimilhança à alusão figurativa.

Imagine-se a astróloga Maya, reclamar da sua imagem de abelha insignificante, ou então, o Bispo de Coimbra rever-se na personagem canalha e erótica do Padre Amaro. Ridículo ? Talvez não. Existe, isso sim, uma intenção clara para confundir o acessório com o essencial, e desse modo, atribuir-lhe uma natureza juridica.

O sentido do texto satírico, como é o caso De Chicken Charles, inscreve-se num plano de criação livre e representação imaginária, permanecendo ambíguo e dependente de um sistema de interpretações subjectivas e polissémicas. Não pode dar lugar a verosimilhança e melindre. Chicken é um personagem, um anti-herói no centro de uma teia de relações, na periferia das quais, gravitam outras personagens secundárias; trata-se de uma história fingida, através duma retórica de depreciação irónica com notações espácio-temporais, em que as personagens e as situações, não podem ter efeito e ancoragem no real. Mais nada.


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