“Os três seios de Novélia” quarenta anos depois
Quarenta anos após a sua primeira edição, a Dom Quixote reedita o livro com que Manuel da Silva Ramos se estreou como escritor. “Os Três Seios de Novélia” divide-se em três andamentos onde o humor da escrita de Silva Ramos brota com uma devassa perturbação dos outros, mas também da própria vida. “Os Três Seios de Novélia”, “Um Longo Nascimento” e “A Respiração” são o reflexo de uma escrita brilhante, com vestígios surrealistas, onde a fantasia não dá tréguas ao leitor. Compõem ainda esta reedição um prefácio de Óscar Lopes, escrito para a primeira edição, e um pósfacio do autor.
Aos 21 anos, o Prémio de Novelística Almeida Garrett, instituído pelas editoras Inova e Portugália Editora, foi-lhe atribuído. Óscar Lopes, Mário Sacramento e Eduardo Prado Coelho fizeram parte do júri que descobriu na sua escrita um estilo único, que oscila entre o lirismo, a ironia e a experimentação da própria escrita. A história cruza-se com o mito que é, afinal, a própria vida. Desengane-se, por isso, o leitor, se pretende encontrar nestes três andamentos pontes entre as histórias.
As pontes, em Manuel da Silva Ramos, são submersas (como no seu livro mais mediático, “A Ponte Submersa”), a crítica é certeira, acutilante e a riqueza do imaginário toma conta dos espaços e das personagens que se transfiguram.Fragmentos, atribuem-lhe alguns como característica principal, ou simplesmente viagens pela Lisboa de 1968 (em “Os Três Seios de Novélia”), pelo tempo de infância (em “Um Longo Nascimento”), pelo imaginário do artista (em “A Respiração”). Em qualquer dos casos, “Os Três Seios de Novélia”, feito da matéria e da aventura do quotidiano, empurra-nos para o grande tema, em nossa opinião, da obra de Manuel da Silva Ramos - o amor. Na verdade, este seria um tema interessante a estudar na obra de Silva Ramos, apesar dos vários romances e novelas onde se amontoam recordações da província ou da alfaiataria do pai, faces de mulheres como o rosto do amor prometido ou a nostalgia do quotidiano à espreita em cada esquina, praça, rua ou café. Longos poemas onde se busca, por vezes sem saber, o amor tão ou mais fugitivo como o próprio criador.
Fora de Portugal durante 30 anos, Manuel da Silva Ramos parece começar, de forma justa, a ser relembrado pela crítica mas, como ele próprio disse, “temos uma crítica literária rarefeita”. Talvez por isso mesmo Manuel da Silva Ramos não se encontre na “História da Literatura Portuguesa”, de Óscar Lopes e António José Saraiva, tendo visto o seu nome retirado numa das últimas revisões. Mas o longo poema de amor ganha espaço e o estilo de Manuel da Silva Ramos é já apreciado por muitos.
O futuro dirá se o tempo é justo para quem encontrou nas “palavras nuas”, de forma quase marginal, uma coordenada de vida: “Lembro-me muito bem desse ano de 1968. Eu morava em Entrecampos, perto da linha do comboio. Ia de café em café, bebendo alguns bagaços e escrevendo o livro na minha cabeça. Passeando-me e escrevendo. Cafés do Campo Pequeno, da Avenida da República, de Entrecampos, por fim a famosa Grã-Fina na Rua de Entrecampos. Chegava a casa exausto e como não tinha mesa no quarto de estudante (nesse tempo os estudantes estudavam nos cafés) era sentado numa cadeira e escrevendo sobre uma mala de viagem que transcrevia para o papel o que acabava de escrever na minha cabeça. Belos tempos onde não havia computador, máquina de escrever eléctrica, só as palavras nuas à minha espera” (Excerto do «Posfácio sem soutienenhum».
Manuel da Silva Ramos, Os Três Seios de Novélia, Lisboa, Dom Quixote, 2008
4 comentários:
Aposto que o MSR pediu o prefácio ao Paulo Rosa!
:)
aí esse cabelinho...
............e quando lhe dá para escrever umas estorias(é assim que estes intectualoides gostam de dizer)sobre a Covilhã, no minino ridiculo, nem sabe mesmo a quem recorrer para informações do antigamente, tambem coitado a muito que não é de "cá".
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