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quinta-feira, dezembro 23, 2010

"R´etratos", por João Mineiro "_Um Natal em dança de balcão...

Boas festas - dizem aqui e ali… Todos e todas gostamos muito de desejar boas festas uns aos outros e de todos os anos voltarmos a repetir os mesmos votos de fim de ano, as mesmas deixas do Natal. Deixa-nos bastante confortáveis podermos pensar que para o ano é que vai ser, para o ano é que esta porra vai finalmente correr bem. Entretanto, mesmo não sendo o profeta da desgraça, gosto de pensar o que festejamos nós afinal… Mas deixo só a pergunta, porque se começo a dissertar sobre o pânico social que vai ser 2011 os mercados aumentam os juros da dívida e lá vem outra vez o nosso FMI limar umas arestas ao nosso salário, ou às nossas bolsas de estudo, ou aos nossos impostos, ou aos nossos subsídios sociais, ou a qualquer coisa que tenha como objectivo proteger pessoas e garantir igualdade e subsistência. Ficaria, na verdade, deprimido e não ia beber copos e cantar com os meus amigos dia 31, por isso mais vale pensar que tudo vai correr bem, enquanto ficamos em casa em frente à lareira assistindo à degradação do 1984 do Orwell transformado outra vez em reality show !

O incógnito Scorpio Mab pediu-me que esquecesse desta vez a crise e escrevesse algo positivo sobre o Natal ou outra coisa qualquer. Acho que o sentimento que me invade enquanto escrevo este texto é sintomático da minha geração. E por muito que recalcasse os meus instintos naturais para escrever sobre pessoas, seria muito complicado de o fazer de forma não hipócrita.

Posto que sobre o Natal para mim há uma ou duas perguntas a fazer: onde é que está o menino Jesus dos sem-abrigo das cidades que passam o Natal, como outra noite qualquer, deitados sobre cartões? O Natal é um encontro da família, é um Alzheimer social do que tem corrido mal, e é muito bom podermos estar juntos e esquecer tudo o que nos divide, mas e para as pessoas que não têm família? O que é o Natal para quem a família não existe? Com as nossas famílias juntamo-nos à lareira a cantar pelo bem-estar dos `pobrezinhos`, mas por baixo da nossa varanda, ou até na casa em frente, pode estar um desses `pobrezinhos` que diariamente nos passa ao lado… Queremos falar da Covilhã, onde passará o Natal o Santa Ováia, o Mantengueiro? Quem não tem com quem passar o Natal, será que tem Natal? É uma visão simplista demais pensar que é tudo como na nossa casa.

Depois do Natal, despedimo-nos, fazemos votos felizes de fim-de-ano, os mesmos votos de fim de ano, e os pobres continuam no mesmo sítio, à mesma hora, com o mesmo que comer e que vestir, e nunca mais nos lembramos de questionar um sistema que produz e reproduz pobreza… nem de perguntar porque é que isto tem que ser assim?!?

Já o Zeca cantou há muito o seu Natal dos pobres e em todo o caso os pobres por quem Zeca cantava continuam ai, em todas as esferas da vida e da forma mais camuflada que nem não nos apercebemos por vezes que existem tão perto de nós.

E assim como antes, continuamos a desejar boas festas, as mesmas boas festas de sempre… E ainda assim, o Mundo mantém-se (mais um bocadinho para frente, ou mais um bocadinho para trás) o mesmo Mundo de sempre, o Mundo de alguns.

Sinal dos tempos será que já não vivemos o “Natal dos Pobres” do Zeca, vivemos mais em clima de “Dança de Balcão” dos Virgens Suta. O vinho mantém-se, apenas o vinho…

Bom Natal


Saudações.

João Nuno Mineiro


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sexta-feira, novembro 19, 2010

"R´etratos", por João Mineiro "...deviam ter vergonha!

Na última Quarta-Feira, dia 17 de Novembro sete mil estudantes do Ensino Superior manifestaram-se entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República contra o novo método de cálculo das bolsas, consequência da incongruência do decreto 70/2010, que prevê cortes em todas as prestações sociais incluindo nas bolsas de estudo. Esse decreto faz parte das medidas de austeridade que foram lançadas e contra as quais dia 24 o país vai parar. Calcula-se que cerca de 20 mil estudantes vão perder bolsa e milhares de estudantes vão ter que sair do Ensino Superior por não terem como pagar as propinas e os custos inerentes à frequência do Ensino Superior. Por outro lado, os milhares de estudantes que se juntaram em Lisboa manifestaram-se contra as propinas como modelo-base de permanência no Ensino, contra a mercadorização da educação, da vida e do conhecimento. Uma coisa os estudantes conseguiram: dia 9 de Dezembro os partidos vão reavaliar os processos de atribuição de bolsas.

Parece-me que não há causa mais justa que o acesso ao Ensino e ao conhecimento não ser baseado em questões económicas: quem pode pagar estuda, quem não pode não estuda! E perante a eminência de cortes nas bolsas a 20 mil alunos era urgente que os estudantes se expressassem massivamente… Mais: segundo o estudo de Belmiro Cabrita, por causa dos sucessivos aumentos de propinas, em dez anos (1995-2005) um terço dos estudantes mais pobres já tiverem que abandonar o Ensino Superior! Mais ainda: por causa dos estudantes não terem dinheiro para pagar propinas e despesas, o Governo decidiu apostar nos empréstimos bancários como forma de financiamento do ensino. Ou seja: quando um estudante sai do ensino superior tem logo uma divida brutal à banca… E como a vai pagar? Com emprego precário e mal pago? Resultado: os estudantes devem hoje à banca 130 milhões de euros!!

Mas parece que nem toda a gente tem noção destes factos. Em Lisboa estiveram milhares de estudantes de Coimbra, Lisboa, Braga, Porto, Évora, Beja, Guimarães e Guarda… Mas o que disse por exemplo a direcção Associação Académica da Universidade da Beira Interior sobre os cortes nas bolsas e a manifestação?! As direcções da AE´s e AC´s que não se vincularam a esta manifestação e que não participaram nela, como a minha a do ISCTE, são cúmplices e co-responsáveis pelo facto de milhares estudantes irem ficar sem bolsa e terem que abandonar o Ensino Superior. São direcções de Associações de Estudantes que nem merecem ter esse título. São Associações ou de sócios ou apenas dos estudantes que têm que pagar o Ensino. Os outros são menos estudantes, são menos pessoas, têm menos direito porque não nasceram virados para o Sol… São comissões de festas que na prática não representam ninguém a não ser eles próprios.

As direcções das Associações de Estudantes e as direcções das Associações Académicas que não se associaram à Manifestação Nacional do Ensino Superior contra os cortes nas bolsas deviam ter vergonha!

Bom fim-de-semana.


Saudações.

João Nuno Mineiro


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sexta-feira, novembro 05, 2010

"R´etratos" Porque é que os órgãos de comunicação social não noticiam e preferem ignorar os milhares de pessoas que se juntam nos Fóruns Sociais?

Compreender a realidade social como produção e produto da cultura e, acrescentaria eu, da política (com p grande) é fundamental para compreender o Mundo que nos rodeia, que nos expande enquanto actores mas que ao mesmo tempo nos cerca enquanto construções de alguém e de algo. Como Bauman diz: enquanto projectos de “um” projectista que nos controla e nos manipula, aludindo à dicotomia entre Huxley e Orwell dos nossos tempos. Diversos ângulos e “objectivas” podem ser aplicados na observação da realidade social. Gostaria esta semana de colocar a minha objectiva nos movimentos sociais intrinsecamente ligados à realidade a que estamos sujeitos. Os movimentos sociais enquanto conceito dos nossos dias e tão bem explorados por Scherer-Warren, do Brasil, ou pelo Português Boaventura Sousa Santos, são essenciais para equacionar duas questões sempre carentes de resposta, pelo facto de esta ser uma actualização permanente: porque motivos as pessoas se juntam e lutam? Os movimentos sociais são parte intrínseca da sociedade ou formas luta pela superação dos moldes desta?

Diriam muitos que depende de que movimentos sociais estamos a falar, de como se organizam, com que objectivos e com que metas. Esta semana gostaria de falar dos movimentos sociais que se reuniram em Istambul no Fórum Social Europeu 2010 e com os quais tive a oportunidade de partilhar perspectivas de intervenção, cidadania e luta social. Os movimentos sociais que se reuniram no Fórum Social Europeu não eram, de longe, um feudo político e partidário de esquerda. Eram sobretudo pessoas de consciências críticas sobre o Mundo, umas pertencentes a partidos, outras não, que se encontraram todas em Istambul para perguntar, mais uma vez: como e com que bandeiras organizamos a luta dos movimentos sociais na Europa?

Quem acompanha a história dos Fóruns Sociais, designadamente o Fórum Europeu, sabe a partir a partir de Londres, o Fórum foi perdendo importância do ponto de vista estratégico e de participação. Mas isso nunca o anulou como importante centro de partilha e de cidadania Europeia.

Por Istambul, este ano, passaram movimentos ambientalistas, que exigem o Mundo, movimentos que protestaram contra a ineficácia da Cimeira de Copenhaga, que lutam pela água pública com um direito de todos e de todas sem excepção, movimentos que equacionam o pagamento da divida ecológica dos países do Norte aos países do terceiro Mundo. Passaram movimentos sociais antiguerra que se opõe à política belicista da Nato e querem uma alternativa anti militarista baseada numa política de paz e não agressão entre os povos. Passaram movimentos sociais ligados ao trabalho e à luta anti precariedade, por um modelo laboral estável, com protecção social e que não esteja submetido às leis desreguladas e desreguladoras do mercado. Passaram movimentos sociais ligados à educação, como o que eu estive a representar ligado ao associativismo estudantil, sindicatos de professores e movimentos pela escola pública que exigiram um escola diferente, autónoma dos lobbies “mercantis”, contra a privatização da educação e a usurpação dos valores educativos. Passaram movimentos sociais ligados ao feminismo, que no dia antes do Fórum organizaram a Marcha Mundial das Mulheres. Passaram movimentos LGBT, que estiveram na base da primeira marcha LGBT da Turquia de outras Marchas pela Europa fora, incluindo a de Portugal. Passaram movimentos ligados às lutas pela autodeterminação dos povos, com os Curdos ou Palestinianos. Passaram movimentos ligados à luta contra a pobreza nos países de Terceiro Mundo. Enfim, toda uma mescla de interesses sociais, políticos, culturais e ambientais que levaram milhares de pessoas a juntar-se para colectivamente pensarem outra forma de organizarmos a Europa.

Os milhares de pessoas que este ano passaram pelo Fórum Social Europeu provam que existe alternativa à inevitabilidade. O desemprego, a precariedade, a destruição ambiental, a guerra, a pobreza, a fome, a privatização das escolas, a opressão das mulheres, a repressão aos povos, a opressão aos e às homossexuais não são realidades estáticas, enraizadas e desprovidas de qualquer perspectiva de acção e de transformação. Pelo contrário, o que levou milhares de activistas pelos direitos sociais globais a Istambul este ano, e o que leva milhões de activistas por todo o Mundo fora – desde os que estão em sindicatos, a movimentos globais, a simples colectividades locais -, prova que existe sempre alternativa, quando ela é discutida, partilhada e sobretudo quando as pessoas decidem tomar com as suas próprias mãos – mãos individuais e sociais -, a mudança do seu futuro.

Serve este pequeno apontamento para dizer que, em todas as frentes, a injustiça não é inevitável, que por todo o Mundo existem pessoas a transformar a realidade onde vivem, em todo o Mundo existem pessoas a lutar pelos direitos das mulheres, como pelos direitos dos homossexuais, como pelos direitos dos negros, como pelos direitos ambientais, como pelos direitos ao trabalho estável, como pelos direitos à paz e à não agressão, com pelos direitos estudantis, como pelos direitos de existência e de identidade, como por todos os direitos a que as pessoas devem ter direito.

Ao Fórum Social fui com um grupo de activistas de movimentos sociais como o FERVE, os Precários Inflexíveis, a PAGAN, o SOS Racismo, a UMAR, além da delegação da CGTP, a Attac e a Cultra.

E a propósito de delegação Portuguesa presente no Fórum deixo alguns textos sectoriais escritos pelos activistas Portugueses.

E, já agora, a propósito do Fórum deixo uma pergunta/provocação: porque é que os órgãos de comunicação social não noticiam e preferem ignora os milhares de pessoas que se juntam nos Fóruns Sociais?

Bom fim-de-semana.


Saudações.

João Nuno Mineiro


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sexta-feira, outubro 22, 2010

"R´etratos", por João Mineiro "Porque é que a praxe existe? porque sim!"

Todos os anos, com o começo do ano académico, assistimos ao (re)começo das tradições académicas em praticamente todas as faculdades do país. Entre estas tradições destaca-se a praxe académica.

A praxe académica enquanto conceito, nos nossos dias, surge como resposta à necessidade de integração de estudantes no novo tipo de ensino, o ensino universitário. Mas ela não surge assim. Desde a institucionalização da praxe, na Universidade de Coimbra, muita alteração se fez ao objectivo da praxe, e à sua prática real. Desde a sua proibição por D.João V - "Hey por bem e mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos."-, a praxe sofreu no século posterior, século XIX, uma alteração profunda caracterizada pelo aumento massivo da violência. Só a implantação da República parou a violência praxista. A praxe é recuperada, embora de uma forma diferente, no Estado Novo e novamente é abolida consensualmente a seguir ao 25 Abril, fruto de tempos em que as lutas eram outras…

A praxe, como a conhecemos hoje, é fruto do seu ressurgimento pós Abril, em particular fruto massificação praxista dos anos 70. No Porto, como em Coimbra, em Lisboa, em Évora, a praxe foi (re)implantada ou, no caso especifico de Lisboa, implantada mais seriamente. Esta (re)implantação foi acompanhada pela tomada das Associações Académicas pelas juventudes partidárias do PS e do PSD. Associações Académicas, que mesmo não sendo comissões de praxe, são importantes estruturas de base e apoio da cultura praxista. Com a massificação da praxe, enquanto meio de integração segundo as comissões de praxe, os rituais institucionalizam-se, as hierarquias ganham força, os rituais multiplicam-se de ano para a ano, e cria-se uma tradição académica de praxe. É essa a tradição com que quase todos os estudantes de primeiro ano na faculdade se deparam.

Mais que fazer uma análise histórica do que foi a praxe, interessa-me interpretá-la no hoje. Como é a praxe hoje? Como se processa? Com que objectivos? A quem serve? A praxe deve existir como meio de integração no meio universitário?

- A praxe não é livre. A maioria dos estudantes gosta da praxe e vai à praxe. Isso não a legitima por si só. O que acontece a um estudante que se declara anti-praxe? Tem o mesmo tratamento pelos colegas de curso mais velhos? É convidados para jantares de curso e outras formas de convívio estudantil? Um estudante anti-praxe é um estudante por norma excluído dos convívios de curso e das formas de socialização que se fazem entre os cursos. É mal visto e por isso poucos se declaram anti-praxe, por medo de represálias académicas.

- A praxe é hierárquica. A praxe onde ela está mais fortemente implantada, e destaco muito especificamente a Universidade da Beira Interior, é uma praxe com uma hierarquia muito forte e rígida. O que é que legitima a autoridade hierárquica? O número de matrículas. Para ser mais específico e falar com os termos correctos, quanto mais cadeiras os estudantes deixam para trás e mais acumulação de matrículas têm, mais poder têm na praxe. Na gíria: quanto mais burro mais poderoso! A praxe aproveita-se de uma falsa hierarquica – falsa porque apenas existe dentro dos códigos de praxe -, e a pretexto dessa hierarquia hipótetica, legitima actos de violências, humilhação e subjugação.

- A praxe é violenta fisicamente e psicologicamente. A melhor realidade para descrever é a que observamos. E quanto saímos à rua e damos de cara com a praxe, assistimos à realidade concreta. Os veteranos, grão-mestres, doutores, bispos, e todos esses conceitos praxistas, aplicam sobre os caloiros – ai sim, o conceito é geral -, torturas psicológicas, muitas vezes físicas, que se aproveitam de estigmas e preconceitos pré concebidos para humilhar e subjugar, entre berros, ofensas, ataques pessoais e muitas outras dissimulações absurdas. As praxes aproveitam-se das fragilidades pessoais. Em Castelo Branco há caloiros a dar linguados a porcos (porcos não estou a falar de alguns praxistas mas do animal mesmo), na Covilhã caloiros simulam orgasmos (mesmo que seja sem contacto algum). Em Lisboa caloiros rebolam em lama. No Porto simula-se sexo com uma árvore e fecham-se estudantes em fábricas durante todo o dia. Em Coimbra estudantes (quer dizer…, caloiros) que saiam à rua a partir de determinada hora e sejam apanhados cortam-lhe o cabelo. E já para não falar dos exemplos clássicos de uma rapariga que foi violada, ou outra que ficou durante um dia cheia de bosta de vaca ao sol… Os exemplos são tanto!!!

- A praxe ilusória. É obvio que cria uma dinâmica grupal entre os caloiros importante para o resto dos anos. Mas, mais uma vez, isso não serve como legitimação. A praxe esconde um dado muito importante: é possível criar dinâmicas grupais entre cursos que não se baseiem em praxes. Aliás, há exemplos concretos: visitas à universidade promovidas pelos núcleos de curso, jantares alargadores de cursos, jogos, tertúlias, chill-out sessions, noites de copos, acções culturais, enfim há todo um campo vasto de ideias por explorar. E a isso os membros das comissões de praxe nunca responderam nem nunca quiserem responder.

- A praxe é machista. Em inúmeras praxes existe uma submissão da mulher perante o homem. Seja ao nível da submissão sexual, seja a exploração da opressão machista, seja às praxes em que o objectivo é a mulher dançar para um veterano, ou um caloiro simular uma conversa de “engate” a uma caloira, ou os desfiles de caloiras com pouca roupa em discotecas e bares.

- A praxe é brutalmente homofóbica. Em quase todas as canções e hinos de praxe se exorta a opressão homofóbica. Em todas as letras das músicas de curso são metidas palavras e expressões como gay, paneleiro, maricas, levar no cú, ou outras insinuações rascas que escondem um preconceito brutal, que é altamente opressor para com homossexuais e degradante, ainda por cima dito por pessoas adultas a estudar no ensino superior!

- A praxe não é democrática. Aos caloiros os dados são impostos e não discutidos. A ninguém é perguntado “olha queres fazer esta praxe?”, “caloiro, tem alguma objecção a olhar para o chão quando fala com estudantes com mais matriculas?” ou qualquer outra pergunta deste género. O caloiro faz, simplesmente porque sim, sem justificação e nem tem o direito de perguntar nada. São “regras” dizem eles.

Por todas estes argumentos e dezenas de outros que não descrevo, e por toda a realidade que vejo como estudante em Lisboa, que conheço por relatos de amigos em Coimbra, que conheço por relatos de amigos no Porto, que conheço por relatos de amigos em Braga, que conheço por relato de amigos em Évora, que conheço concretamente na cidade da Covilhã, que a minha rejeição à praxe é absoluta. O que a realidade concreta me mostra é que a praxe é uma forma medieval de opressão e de submissão pré laboral, de aproveitamento de preconceitos e de fraquezas pessoais, de exploração de fragilidades e de diferenças entre as pessoas, e de subjugação não-livre à vontade de alguém que não tem autoridade nenhuma. Numa Universidade livre a praxe não tem de existir.

Eu rejeito a praxe numa frase: porque é que a praxe existe? Porque sim!


Saudações.

João Nuno Mineiro




sexta-feira, junho 25, 2010

R'etratos à sexta...com JM (33)

Em tempos de crise, a teoria política do bloco central em Portugal ou do bloco central de interesses Europeus ou Mundial diz-nos basicamente que os cortes nas “despesas” sociais são uma inevitabilidade. E que perante a falta de recursos e a canalização dos existentes para outros fins - financiamento da banca, cobertura dos buracos e dos abismos financeiros, défice -, é praticamente obrigatório que se corte na despesa social. Não há nada de mais errado. Apesar de a crise não ter sido originada pelos pobres são os pobres que mais sofrem com ela. Pobres e a classe média, principalmente a classe média baixa. O desemprego alastra-se, as pessoas ficam sem o seu ganha-pão, e as que ainda têm o luxo de ter um subsídio de desemprego, depois de tantos descontos, continuam a não ter recursos suficientes para um nível de vida digno. Para a recuperação económica é necessário estimular o consumo, e promover actividades inovadoras e alternativas que gerem emprego. Portanto corte em subsídios e apoios sociais são a forma mais simplista mas ao mesmo tempo mais demagógica e oportunista (porque divide os de baixo) de responder à crise. Cortando no social apenas estamos a promover a estagnação económica e o empobrecimento real das pessoas.

É por isso que o corte que a Câmara Municipal da Covilhã vai fazer na área social não se justifica nem é justificável. Carlos Pinto diz-nos que “não há volta a dar”. Mas há sempre volta a dar. A política é feita de escolhas. Cortar na área social é abdicar de um combate sério pelas pessoas, em particular pelas que menos têm.

Quanta despesa fizemos com o estágio da selecção? Qual foi a factura? E qual foi o retorno para a cidade a pequena escala? E a média escala qual será? Porque três concertos seguidos no Jardim do Lago e agora uma inércia cultural na cidade incapaz de mobilizar vontades e cultivar o optimismo? O que é feito da maior e mais dinâmica feira da Covilhã, a feira de S. Tiago? Há um ano já se ouvia falar dela… E formas de inovar as feiras no Município? E formas de trazer as pessoas ao centro e ao comércio tradicional? E qual a factura das celebrações do 140 anos da elevação a cidade? Não era possível um plano menos dispendioso e mais eficaz?

Que alternativas foram, afinal de contas, economicamente avaliadas do ponto de vista da despesa do Município para que se diga que não há volta a dar e o corte na despesa social é uma inevitabilidade? Apoiar quem tem menos não é bónus que a Câmara dá quando pode e tira quando acha que não pode… Apoiar quem tem menos é um dever! Seja através da habitação social, prestações sociais, alimentação, saúde… Se tem de haver rigor? Obviamente que tem. Contudo a rigorosidade na questão não invalida que da área social estejam dependentes muitas pessoas, que não têm a mentalidade do assistido nem são nenhuns bandidos, só que a estrutura social e económica não lhes permite ter auto-suficiência económica.

Antes da megalomania devem estar a pessoas, porque a verdade é que excentricidades, despesas gasta injustificadamente, derrapagens financeiras, ausência de prioridades sérias e inércia política não matam a fome a absolutamente ninguém! E mais uma vez quem se trama são sempre os de baixo…



Saudações.

João Nuno Mineiro

sexta-feira, junho 04, 2010

R'etratos à sexta...com JM (32)

Existem questões de disputa e de hegemonia de ideias. Questões que vão ao cerne da política partidária e que arrastam com elas intensas discussões, jogos políticos, interesses. Questões que nos opõem quanto à forma como vemos a cidade e quanto à forma de desenvolvimento que queremos para ela. Mas também existem outras questões, que não deviam estar reféns dos interesses partidários e que deveriam mobilizar todos e todas. Questões que não podem de modo algum servir de pretexto para a afirmação de egos, para egoísmos natos.

É por isso que é diferente discutir uma localização e o modo de funcionamento de um hospital, e discutir a necessidade de um serviço público de saúde que responda às pessoas. Os partidos percebem isso e foi por isso que na Assembleia Municipal da Covilhã todos, sem excepção, aprovaram por unanimidade uma moção em defesa da constituição de um Hospital Central na Covilhã. Mesmo o administrador do CHCB João Casteleiro mostrou-se satisfeito com a exigência. Ou seja, existe um consenso político e profissional quanto à necessidade de ser criado um Hospital Central na Covilhã.

Aliás, esta questão enquadra-se como uma luva na defesa dos serviços públicos no Interior e na defesa da coesão territorial em Portugal. A necessidade crescente de trazer mais pessoas para o Interior só pode ser concretizada caso existam serviços públicos de qualidade que garantam bem-estar social. E nesses serviços públicos, o de saúde é uma pedra-basilar. É por isso que a constituição de um Hospital Central na Covilhã é uma lufada de ar fresco na luta pela fixação de população no Interior em particular na Beira Interior.

E porque na Covilhã e não na Guarda ou em Castelo Branco? A Guarda e Castelo Branco têm de ter consciência que por serem sedes de distrito têm fundos e apoios financeiros e políticos diferentes dos que têm os concelhos desses distritos. Existem dados sobre isso inclusive. Mas apesar disso se há cidade que neste momento apresenta mais dinamismo sócio-econonómico à escala regional essa cidade é a Covilhã, que nem sede de distrito é. A Covilhã tem uma Faculdade de Ciências da Saúde, que está a formar médicos especializados e a constituição de um Hospital Central na Covilhã é duplamente positivo porque absorve mão-de-obra qualificada e promove parcerias com a Faculdade. Por outro lado é reconhecida internacionalmente a competência e o rigor do CHCV (http://www.urbi.ubi.pt/_urbi/pag.php?p=7761).

E para quem considerar que estes não são argumentos pertinentes ninguém pode ficar indiferente ao facto de milhares de pessoas na zona da Beira Interior terem de ir até Coimbra – duas horas de viagem! -, por não terem determinados serviços médicos na sua zona. Existe um Hospital Central em Viseu inclusive – hora e meia de viagem -, mas que abrange sobretudo a Beira Alta.

Ora se temos um Hospital Central em Coimbra que alberga toda a Beira Litoral e arredores, um Hospital Central em Viseu que alberga toda a zona da Beira Alta e arredores, porque não havemos de exigir um Hospital Central na Covilhã que abranja toda a Beira Interior – Covilhã, Fundão, Castelo Branco, Guarda etc?

É uma questão de futuro, de desenvolvimento e sobretudo de justiça!

E as pessoas sabem que este não é um golpe do PSD de Carlos Pinto ao qual todos os partidos da oposição caíram. Esta é uma exigência da Covilhã, sim, porque a Covilhã tem capacidade e dinâmica para ter Hospital Central, mas é sobretudo uma exigência da Beira Interior que por uma questão de justiça merece serviços públicos de qualidade capazes de fixar pessoas e de criar emprego.

É por isso que o Hospital Central é um combate para vencer!!

Saudações.

João Nuno Mineiro

sexta-feira, maio 14, 2010

R'etratos à sexta...com JM (31)

“Na linha fluida da vida, individualidade amorfa”, nome enigmático para uma peça de teatro vanguardista, pelo conceito em que se desenrola, e ousada pela reflexão a que se propõe. Esta peça esteve em cena durante cinco noites, e todos os actores que nela participaram são jovens estudantes do ensino básico e secundário da Escola Frei Heitor Pinto. A oficina de teatro dessa escola, habilmente dirigida por uma professora (uma professora daqueles que ainda conseguem cativar os alunos e leva-los a descobrir caminhos por percorrer), tem feito nos últimos anos um trabalho verdadeiramente notável. Não só consegue produzir um espectáculo de grande qualidade no final do ano (ainda que seja teatro amador), como não se acomoda a textos básicos e pouco exigentes, procurando a formação e a educação dos espectadores, como também cria raízes, permitindo que o projecto não morra e todos os anos tenha uma equipa de alunos empenhados em pegar num texto sério, reflectir sobre ele, representá-lo e mostrá-lo ao público.

Parece simples para quem vê a peça no final do ano. Mas conseguir cativar alunos para ensaios todas as semanas, para decorarem e interpretarem um texto que não é um texto fácil e para terem a capacidade de por cinco noites o apresentar a mais de 60 pessoas por noite, é realmente notável. Ainda mais notável é conseguir que essa rotina se mantenha todos os anos. Ainda são projectos deste tipo que marcam a diferença. Muitos dos estudantes que vão assistir à peça, vão pela primeira vez ao teatro. Descobrem um texto, uma situação, um problema. Vêem pessoas muito próximas deles (amigos, conhecidos) a interpretá-lo. Por outro lado, professores e pais que vão à peça têm não só a oportunidade de ver textos de autores que já conhecem num espectáculo estruturado, como têm a oportunidade de constatar que não estão a formar maquinas na escola, mas sim seres humanos cultos, intervenientes e pensadores.

Depois de uma comédia do Woody Allen no ano passado, este ano brindaram-nos com um texto que junta o universo Pessoano do “Livro do Desassossego” de Bernardo Soares, com o recente “o homem ou é tolo ou é uma mulher” de Gonçalo M. Tavares. A confluência de textos originou o “na linha fluida da vida, individualidade amorfa”:

- Dois Fernando Pessoa interpretados por Pedro Batista e Pedro Videira, ofereciam-nos a voz do criador estético - quem somos, porque o somos, o que é a alma, o que são os outros em nós mesmos -, do inventor de si próprio;

-Os espectadores da cena, interpretados por Rita Marques, Beatriz Barata e Henrique, apresentam-nos a perspectiva de quem observa a criação e a fragmentação do criador;

- O Coro, por Patrícia Garcia e Raquel Abrantes, contextualiza e permite-nos fazer uma ponte mais racional entre o criador, o objecto da criação e o observador;

- E por fim as identidades do ser, as almas do eu, as personalidades das emoções, cinco personagens, interpretadas por Mariana Gomes, Vera Planos, Joana Lourenço, Filipa Afonso, Laura Silva e Diana Rabasquinho, em que se mistura toda a complexidade do pensamento pessoano, a fragmentação do eu, a dor de pensar e de viver, a consciência do absurdo, o anti sentimentalismo, a auto análise, o fingimento poético, o decadentismo, as máscaras de nós próprios, a construção, as múltiplas personalidades de nós mesmos (que somos nós mesmos).

O que deu um fio condutor à história foi a harmonia da interligação de todas as personagens. Apesar de ser necessária uma extrema atenção à peça, porque é muito complexa, ela leva-nos à melhor dimensão a que nos podemos dedicar: à dimensão de nós próprios.

Este projecto está muito à frente da cidade que o acolhe. No grupo há pelo menos duas jovens que querem seguir teatro profissionalmente, e além destes projectos poucas oportunidades têm tido na Covilhã. Não há workshops, ou oficinas, ou conferências, ou análise textual. É por isso que este projecto é uma lufada de ar fresco no vazio cultural desta cidade. Mas o que ainda mais me entristece é que um projecto deste tipo tenha que ficado reduzido ao ginásio da escola, que não seja mostrado à cidade, noutro espaço, com outros públicos… É premente que haja mais diálogo, são oportunidades que perdemos.

Nota máxima para a Oficina de Teatro da Escola Frei Heitor Pinto!

Se Pessoa visse a peça teria ficado orgulhoso com a excelente criação que os grupo fez e não deixaria de criticar a “cidadezinha” sem capacidade para a acolher, ao nível daquilo que ela nos oferece!

Saudações.

João Nuno Mineiro

sexta-feira, abril 30, 2010

R'etratos à sexta...com JM (30)

Qualquer aluno do ensino secundário de Geografia aprende o ciclo natural do desenvolvimento: incontornável, rigoroso e inflexível. Diz-nos esse ciclo que para qualquer área se desenvolver são necessários serviços. Que toda a lógica de desenvolvimento de uma região se desenvolve da seguinte forma: pessoas, logo, necessidade de serviços; fixação de serviços, logo, fixação de actividades complementares aos serviços; desenvolvimento de actividades e de serviços, logo, fixação de actividades económicas; fixação de actividades económicas, logo, criação de emprego… Ou seja: serviços, actividades complementares, actividades económicas, criação de emprego, logo, desenvolvimento e fixação de mais pessoas.


Um ciclo rígido porque sabemos que basta um dos elos falhar para a região ficar condenada à inércia económica e social. Se falharem serviços, se falharem pessoas, se falharem actividades económicas, o ciclo inverte-se. Logo, mais abandono, mais despovoamento, menos desenvolvimento.


É ai que a política entra, ou deveria entrar. Na ausência de pessoas que atraiam serviços (promovendo a normalidade do ciclo) o que fazer? Não fixar serviços e deixar a região entregue ao seu isolamento segregacionista e portanto ao abandono… Ou fixar mais serviços para promover a recuperação da dinâmica do ciclo?


É nesta fronteira que se fixa o interior e a interioridade. É preciso perceber se devemos fixar mais serviços para atrair mais actividades e mais pessoas; ou se devemos desinvestir em serviços e deixar tudo como está (ou pior) …


É nesta lógica que assentam as declarações da governadora civil de Castelo Branco, dadas na semana passada, na RCB. Alzira Sarrasqueiro diz-se, e contradiz-se (talvez pela irresponsabilidade das declarações), sobre as maternidades de Castelo Branco e da Covilhã. Afirma que uma delas terá, possivelmente, que encerrar. Ficámos a saber da agenda escondida para o distrito. Mas ainda bem que assim é… As populações do distrito sabem agora quais as intenções escondidas na penumbra da política e que luta têm de travar nos próximos tempos.


O distrito de Castelo Branco é dos distritos com uma área geográfica de maior dimensão, é um distrito extenso (na quarta fui da Covilhã a Vila de Rei e demorei duas horas de caminho…). É um distrito de realidades. Um distrito que vive no seio da interioridade mas que não quer, nem pode, estar condenado ao interioricidio. É por isso que a manutenção das maternidades no distrito é condição essencial e imprescindível ao salto que o distrito precisa de dar (que vai ter que dar!) se quiser reavivar-se no normal ciclo de desenvolvimento.


Covilhã e Castelo Branco, ambas com instituições de ensino superior, estão todos os anos a formar novos quadros: sociólogos, economistas, professores, engenheiros, psicológicos (etc) e até já surgem os primeiros médicos cá formados (como citava o JF à três ou quatro edições). É importantíssimo que parte desses quadros se fixe no distrito, arranjando emprego, criando família, tendo filhos: dando uma nova força ao desenvolvimento do distrito e das cidades do distrito.


Como é que podemos pedir aos novos formados do distrito que se fixem e façam vida cá, se nem uma maternidade próxima conseguimos garantir? Algum licenciado na Covilhã pensará em fazer vida e família na cidade quando tem a maternidade a mais de meia hora de distância? Quererá a nova geração de formados fixar-se num distrito onde é provável que os seus filhos nasçam na auto-estrada?


E isto para não falar das inúmeras vilas e aldeias dependentes dos serviços da cidade e que são o grande motor do equilíbrio geográfico e da não perda da identidade cultural dos concelhos…


Não vou por ai: por princípio sou absoluta e intransigentemente contra o encerramento de qualquer maternidade ou serviço público de saúde no distrito e na cidade da Covilhã.


Um compromisso sério com o desenvolvimento do nosso distrito é um imperativo moral a que haja grandes mobilizações contra esta lógica facilitista de corte nos serviços públicos essenciais e que são pedras basilares do nosso desenvolvimento. Poderá economicamente sair mais barato, sim. Em média e larga escala será um erro brutal, não só para a dinâmica económica e social do distrito como para o contributo que este distrito pode dar para a economia Portuguesa.


É por isso que a rejeição do encerramento de serviços de maternidade tem que ser um combate de todos: autarquias, associações, partidos: de toda a sociedade civil.


Num país solidário este não seria um combate exclusivamente local mas sim nacional. Mas como a maioria os Portugueses do litoral (especialmente os políticos) nem sabe onde Castelo Branco fica… Esse combate terá que ser nosso!



Saudações.

João Nuno Mineiro

sexta-feira, abril 09, 2010

R'etratos à sexta...com JM (29)

Em vésperas de viagem de finalistas consegui arranjar tempo para ir ao Académico dos Penedos Altos debater a “Covilhã na Europa”. O debate foi promovido pelo Académico no seu programa “Conversas ao Serão” e foi transmitido pela Rádio Covilhã. O debate tinha como orador principal Miguel Nascimento e deveria ter uma mesa com representantes das juventudes partidárias mas parece que a Juventude Social Democrata (JSD) e da Juventude Popular (JP) não existem na Covilhã: a JSD decidiu não aparecer (apareceu sim o vereador Pedro Silva, que embora estivesse no lugar do representante da JSD estava a título pessoal) e pela JP estava um senhor que presumo já ter passado os quarenta… A JS, a JCP e o Bloco de Esquerda marcaram presença. Só estive metade do debate porque tinha hora de saída marcada mas do tempo que estive só posso afirmar que o Académico dos Penedos Altos e a Rádio Covilhã estão de parabéns. A discussão foi interessante... Faz falta mais debate democrático como que se passou naquela noite de Sexta.

Durante a discussão houve um ponto que todos pareceram estar de acordo: a UBI foi um dos grandes motores de crescimento da cidade e da sua afirmação no plano nacional e Europeu. É um facto e é inegável. A UBI foi uma lufada de ar fresco na Covilhã. E assim como é impensável pensar Portugal fora da UE, também é impensável pensar a UBI fora da Covilhã. A UBI é dos grandes motores da cidade sob vários pontos de vista, e as noticias mais recentes sobre as relações da AAUBI com a CMC merecem umas linhas de reflexão.

É completamente errado e altamente falacioso dizer-se que os apoios da CMC à AAUBI, em particular à Semana Académica, são apoios às bebedeiras e ao devaneio. E é estúpido dize-lo, porque significa não compreender o alcance cultural que eventos como a Semana Académica trazem à Covilhã. Há álcool, há drogas, há exageros… Claro que há, como há aliás em qualquer espaço de diversão. Mas a verdade é que por trás dessas conclusões fáceis está um evento que ao longo dos anos tem trazido à Covilhã inúmeras bandas de excelente qualidade, que de outro forma não viriam cá. Bandas que não só abriram o leque cultural aos estudantes e à população em geral como trouxeram gente de vários pontos do país à Covilhã.




Eu próprio apesar de novo já assisti a excelentes espectáculos nas festas académicas: os Terrakota, os Da Weasel, os Blasted Mechanism, os Blind Zero, os Taxi, os SP&Wilson, os Mind da Gap, os Deolinda, os Cool Hipnoise, os WrayGunn, o Jorge Palma, os Fonzie, os Tara Perdida, os Mercado Negro… Isto são pequenas amostras de alguns cabeças de cartaz dos últimos anos, porque por outro lado já conheci nas festas académicas inúmeras bandas mais pequenas mas com excelente qualidade como os Ventos da Líria ou os Virgem Suta, mais recentemente.

A Semana Académica 2010 é só mais uma confirmação: bandas emergentes como Mundo Cão, X-WIFE, OQUESTRADA, clássicos como Peste e Sida, inovação e música alternativa com Diabo na Cruz ou Olive Tree Dance.
Video

O alcance cultural das festas académicas é um serviço prestado à cidade, é por isso que não se compreendem estas polémicas AAUBI e CMC. Financiar as festas académicas é financiar a cultura, é financiar a importância da Universidade e é sobretudo financiar a cidade no seu todo. E o interesse das festas académicas não pode ficar subordinado às politiquices AAUBI \CMC! O papel da Câmara é ajudar no financiamento (não pode ser de outra forma) e o papel da AAUBI é apresentar contas do dinheiro que a CMC disponibilizou, com total transparência, exigência e rigor.

O resto não passa de devaneios pseudo intelectuais de quem gostava de ter espírito para sentir um bom concerto, e de quem gostava de ter a capacidade de perceber os novos caminhos da música e da cultura. Chamar-lhe-ia inveja mas à boa maneira portuguesa, é mera velha restelice !

Saudações.

João Nuno Mineiro

segunda-feira, março 22, 2010

R'etratos à sexta...com JM (28)

No dia 11 de Janeiro de 1924 foi inaugurado o magistral Teatro-Cine por João Ferreira Bicho, que trouxe a palco um espectáculo da Companhia Amélia Rey Colaço. Esse espaço, apesar do encerramento nos anos 80, foi adquirindo um crescente protagonismo para as práticas culturais do concelho e da região. Diversos nomes na área do Teatro, da Música, da Dança ou das Artes Performativas encheram o Teatro-Cine de magia.

Proporcionaram à cidade, e também ao concelho, vivências incríveis e partilhas sensíveis de conhecimentos e de visões do Mundo e da vida. Milhares de pessoas durante dezenas de anos dirigiram-se ao Teatro-Cine, na ânsia de serem surpreendidos. Se o ano 1992 foi um ano importante para a reactivação do Teatro, 2001 foi um ano também ele importante para a regularização dos seus espectáculos. Actualmente o Teatro tem cerca de 984 lugares, e este ano de 2010 poderá ser um ano decisivo não só para o Teatro-Cine, como para toda a política cultural da cidade, do distrito e da região.


Com efeito, a CMC tomou a louvável decisão de compra do imóvel. Era um crime a Câmara pagar um aluguer de 75 mil euros por um espaço, que mesmo sendo privado no papel, é público pelas vivências que transborda e pela sua ligação às gentes do Concelho. Este será sem dúvida um passo histórico para a cidade e para o concelho. A compra do Teatro-Cine, e as oportunidades que dela podem surgir, são não só uma estratégia a nível de política cultural, como são uma estratégia a nível de desenvolvimento económico e social. Poderão haver ideias, projectos, propostas. A verdade, e já dizia o ensaísta e escritor Joseph Joubert, “quem tem imaginação mas não tem cultura, possui asas mas não tem pés”. Não há forma mais clara de dize-lo. Uma cidade com imaginação mas sem cultura, é uma cidade infecunda que vive na inércia.


Os políticos locais sabem-no. Não é por acaso que no passado dia 12, todas as bancadas da Assembleia Municipal se levantaram na hora de votar a compra do Teatro-Cine…


O que importa agora é pensar, e sobretudo colocar em discussão pública, o passo seguinte, que será tão ou mais importante quanto este primeiro. Sabemos que a Covilhã precisa de um espaço de teatro e outras artes bem mais sólido. A qualidade que o Teatro das Beiras, a Quarta Parede ou a ASTA tem trazido exige uma sala municipal de relevo. A discussão prende-se também com este aspecto. O que será melhor para as companhias de teatro e outras artes da Covilhã e da região? Manter a sala como actualmente se encontra (do ponto de vista estrutural), ou reduzir o número de lugares da “sala principal” e criar um novo auditório para os grupos culturais da cidade?


Que alterações deverão ser feitas no Teatro-Cine?


Como tornar o Teatro-Cine num espaço público de uso regular por companhias de teatro, grupos de música, dança, para o cinema, para a literatura e para as colectividades locais que tem dado grandes provas de dinamismo cultural?


Esta é uma discussão que tem de ser pública. Os agentes culturais têm de ser ouvidos e não há outra forma de faze-lo. Tão importante como a aquisição do Teatro-Cine é pensar no que é que daqui para a frente queremos fazer com ele…


… e apesar de algumas respostas já pairarem no ar, parece-me que esta, é uma discussão que ainda está por fazer.



Saudações.

João Nuno Mineiro

terça-feira, março 02, 2010

R'etratos à sexta...com JM (27)

Fernando Paulouro escreveu um editorial de um realismo verdadeiramente assustador. É assustador de facto, mas felizmente que ainda há quem tenha a sobriedade necessária para o fazer. Fernando Paulouro Neves é exacto e concreto na sua análise: “É uma realidade indisfarçável, cuja consciência parece muito difusa na sociedade, a falência da participação cívica na democracia portuguesa. Dirão alguns que essa doença é congénita, que a intervenção cidadã é (e sempre foi) de via reduzida, e que a crise de participação é global. São desculpas de mau pagador., “a verdade, porém, é que pressentimos no quotidiano excessivos sinais de silêncios e indiferenças”.

Quando lia o seu “pensar em voz alta, ou cidadania de via reduzida” e ao mesmo tempo via a cidade desaparecer ao longe dentro da carruagem 21 do Intercidades, lembrei-me de um exemplo que, mesmo sendo particular, quebra a tendência que Fernando Paulouro tão habilmente descreve: a demolição da ponte do Corges.

Enquanto que na sua crónica se cita a indiferença com que os Fundanenses agiram em relação ao Parque das Tílias, a mim parece-me relevante a atitude inconformista que muita gente tem tido em relação às intenções da REFER de demolir a Ponte do Corges, citada na “Construção Magazine”. E note-se que a diferença entre a Covilhã e o Fundão a nível de audição cidadã não é muito relevante.

Com efeito, desde que a intenção da REFER foi expressa muita tinta já escorreu sobre este assunto. Muita gente não se calou.

Quando aqui escrevi sobre a importância da cidadania na cidade, citando peculiarmente a blogosfera, pelos visto não estava tão enganado assim (ao contrário desses pseudo intelectuais da treta que ignobilmente insultam os outros anonimamente, também neste caso…).

Com efeito, a blogosfera assume uma grande importância na expressão cidadã, e é um excelente veículo de intervenção. Este caso não foi excepção. O “Carpinteira” e o “Manufacturas” estiveram na vanguarda desta luta, isso é inegável. Com a rapidez necessária que este caso pedia, a denúncia sobre destruição de um marco histórico da cidade surgiu em tom crítico, mas não insultuoso. Essa denúncia chegou ao parlamento, pelo deputado Pedro Soares do BE e, à que dize-lo, devido à pronta intervenção da blogosfera.

Este caso serve-me de exemplo paradigmático. E faz-me reafirmar um dos votos que aqui deixei para 2010: “que mais haja mais e mais cidadania activa na cidade”, “mais espaços de democracia e participação, mais vontades colectivas e mais discussão e debate (incluindo na blogosfera).”

Se a Ponte do Corges for salva muito se deve ao inconformismo e ao papel cívico com que vários cidadãos vêm a sua cidade. Nesta última edição do Jornal do Fundão, até o Presidente de Junta do Canhoso, e dirigentes de outros partidos se manifestavam sobre o assunto.

Sendo imperativa a análise de Fernando Paulouro (que o é e sabemo-lo), é também imperativo citar os exemplos que contrariam a regra.

A isto chamo cidadania: urge (re)valorizá-la!



Saudações.

João Nuno Mineiro

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

R'etratos à sexta...com JM (26)

Depois de um café, meia dúzia de jogos de sueca e de conversas no Primor faz-se tempo de ir tratar de outros assuntos. Entro na Biblioteca, já pelas quase três da tarde, com uma espécie de ódio horrível por ter que estudar para um teste quando tenho tantas coisas bem mais interessantes para fazer. Subo as escadas. Primeira impressão nas capas de jornais, segunda impressão nas capas das revistas. Faz-se horas. Sento-me e olho para a convidativa sala. O atractivo cheiro dos milhares de livros ali especados à espera que alguém se digne a pegar neles, são a melhor companhia para o silêncio necessário para um estudo rápido e eficaz. Olho à volta: pessoas.

É inimaginável a quantidade de conhecimento que por minuto está a ser produzido naquela sala. Penso: tanta gente, tantos livros. Frase chave da Biblioteca da Covilhã. Quanto mais penso nos livros, nas pessoas, nos livros dentro das pessoas e nas pessoas dentro dos livros mais sinto que afinal de contas nada sei. Mas, “por saber que nada sei tudo saberei”. Peguei no livro, baixei a cabeça e pus-me a estudar. Antes disso tinha revisto a bateria do meu mp3: estava operacional e deixou que o Otis Rush e Charlie Parker abrilhantassem o meu estudo. Quando ia já em quinze páginas lidas e minimamente decoradas olho novamente para as pessoas. António Rodrigues Assunção, nos seus profundos estudos sobre os operários, está sentado junto à janela: acena.

O seu ar concentrado e enigmático faz adivinhar um terceiro volume fantástico. Ao meu lado estava um senhor que eu acho que também escreve. Parecia-me o autor dos recentes livros sobre os Sete Capotes, mas não dou garantias. Estudantes universitários invadem as mesas com dezenas de folhas, livros, canetas, garrafas de água e muito pensamento. Ao meu outro lado, uma amiga minha estuda o mesmo que eu: A segunda metade do século XX. Ao fundo está um senhor que vejo sempre que vou à Biblioteca, passa horas a ler. Só tive oportunidade de o ouvir falar uma vez numa troca de palavras sobre o segundo volume do Movimento Operário e foi brilhante. Ideias consistentes e coerentemente encaixadas, citações de poemas. Mais meia dúzia de páginas lidas e aparece um amigo meu de passagem. É, possivelmente, o jovem mais culto que conheço. Adora cinema, literatura e música. Tem posições políticas diferentes das minhas mas conseguimos discutir aberta e respeitosamente. Escreve e gosta de debater ideias. Vive no anonimato da cidade. A cidade não está suficientemente sensível para reparar na pessoalidade de mais um jovem que passa na rua, que assiste a um debate ou que simplesmente lê um livro. Para a cidade é mais um jovem que só quer copos, sexo e que não se interessa por nada… Não há aquele espírito atento de olhar e pensar que talvez haja ali alguma coisa de diferente e pessoal. É normal.

No meio destes pensamentos fechei os livros e fui buscar o Jornal de Letras, depois o Público, depois a Sábado. Foi uma tarde muito igual às outras, a única particularidade foi que decidi escrever sobre ela. As pessoas daquela Biblioteca passam (tal como o meu amigo) despercebidas. Nem sabe a cidade, tudo aquilo que todas estas pessoas podiam acrescentar. Não há formas nem meios para isso. Não à receptividade e já nem falo do interesse.

As histórias de indecisões, dúvidas, medos, auto-questionamentos, alegrias, esperanças, paixões, satisfações pessoais, realizações e descobertas que todas aquelas mesas emanam fazem-me pensar. Mas, como o Pessoa, quando penso dói-me a cabeça e apesar disso insisto em pensar. Quanto mais penso mais tenho dúvidas, mais tenho incertezas, por vezes mais tristezas. Talvez devesse ser como a ceifeira do Pessoa que não pensa e “canta como se tivesse, Mais razões p´ra cantar que a vida”.Mas não sou. (...). No meio de deambulações estéreis chegam as seis e está na hora do fecho. Sigo para casa. Amanhã é outro dia.

Saudações.

João Nuno Mineiro

sexta-feira, janeiro 29, 2010

R'etratos à sexta...com JM (25)

De pequenas e grandes coisas a cidade se vai aculturando e, umas vezes conscientemente outras vezes não, o público vai aparecendo e correspondendo às iniciativas e apontamentos que aqui e ali se vão produzindo quer pela autarquia, quer pelas associações culturais da cidade.


Importa antes de mais esclarecer que a análise das questões culturais na cidade da Covilhã deve distanciar-se, substancialmente, de questões meramente politiqueiras. De este ou aquele ser ou não contra as políticas da câmara, deste ou daquele ser crítico ou “vassalo”…


A análise dos apontamentos culturais que se produzem não carece das subjectividades da esquerda ou da direita ou do que for, porque o ponto de vista certo nestas questões é precisamente o ponto de vista equitativo e que analisa os eventos culturais precisamente como eventos culturais, rejeitando por isso a crítica só pela crítica e o radicalismo excessivo (embora este termo seja relativo) de quem analisa a cultura pela questão meramente político – partidária.


É esse o distanciamento necessário para uma avaliação justa do que por cá se faz. E, neste aspecto, quero esta semana pensar três acções culturais que na minha óptica merecem ser analisadas: a iniciativa “Noites no museu”, a peça de teatro “A Neve” e o concerto da orquestra barroca da ESART no Teatro Cine.


Soube pela imprensa que na Quinta-Feira, dia 14, ia começar um projecto promovido pela Câmara chamado “Noites no museu”. Fez-me logo lembrar a estranha produção do Shawn Levy. Mas feliz ou infelizmente, o Museu de Arte e Cultura na Covilhã não tem fosseis de dinossauros mas peças de arte históricas do concelho. O Museu de Arte e Cultura é desde logo uma grande obra arquitectónica que conseguiu preservar um antigo edifício da cidade e transforma-lo num espaço de cultura integrado no centro. Esta é uma experiência que sem dúvida deu grandes frutos e seria bom que houvesse mais como ela. Visitei a sua exposição permanente – PATRIMONIVS, há uns meses como uma amiga minha num sábado que se avizinha rotineiro. Ficamos surpreendidos com a grandeza do museu em todos os níveis.


Lá fui, naquela quinta-feira gélida assistir ao espectáculo que a escola de talentos da Banda da Covilhã preparou no Museu. Conversava sobre o cinzentismo de Saramago e Lobo Antunes com Manuel da Silva Ramos a propósito da reportagem que tinha saído nessa quinta no “Jornal de Letras” sobre o humorismo na literatura quando fomos surpreendidos por uma simpática jovem que apresentou o espectáculo. Achei o espectáculo muito interessante não pela complexidade das músicas apresentadas mas pelo esforço e trabalho que os miúdos da Banda da Covilhã demonstraram. Sorrisos espontâneos, nervosismo, brancas, mas acima de tudo muito talento, esforço e dedicação. Afinal de contas nessa noite as cerca de trinta pessoas presentes viram o museu depois do espectáculo e isso pareceu-me muito positivo. Promover apontamentos culturais ao mesmo tempo que se promove o Museu parece-me algo no mínimo interessante. E se o público for aparecendo nas próximas parece-me que esta iniciativa pode ser um sucesso a custos reduzidos.


Após esta iniciativa interessante, a autarquia peca logo a seguir. No dia seguinte, sexta-feira, dia 15, houve um concerto pela Orquestra Barroca da ESART no Teatro Cine e a promoção da autarquia foi nula (nem sequer uma frase da agenda cultural), talvez por a organização não ser dela. Ninguém sabia do concerto. E aqui parece-me que também falha a imprensa. Eu próprio quando soube do concerto já tinha outras coisas combinadas o que me impossibilitou de estar. Um amigo meu esteve lá e disse que estavam vinte, trinta pessoas. Acho vergonhoso que não se tenha feito uma promoção séria do concerto e que os músicos viessem à Covilhã para tocar para tão poucas pessoas. No mínimo coerência…

Por último parece-me inevitável uma referência à peça que está a sair de cena no Teatro das Beiras. Partindo de cinco contos de Virgílio Ferreira o Teatro das Beiras fez uma construção teatral impar. Mais uma vez a estrela da companhia (pelo menos na minha opinião) Sónia Botelho volta a surpreender. Depois de uma personagem mais dramática e titubeante vem agora abrilhantar o espectáculo com uma personagem decidida, psicologicamente forte (que muitos homens certamente temeriam) e muito, muito divertida. Sónia Botelho tem assumido um papel de grande destaque no conjunto de actores do Teatro das Beiras, é sempre um prazer vê-la em palco.


A peça esta muito boa, porque além de pegar em cinco contos com um bom enredo, José Carretas consegue estabelecer entre as peças um nexo lógico fantástico que tornou a própria absorção da história pelo público ainda mais forte e intensa. Foi, em meu ver, uma aposta ganha porque além de uma peça de teatro aliciante promoveu-se um autor de renome na literatura portuguesa.

Evoluímos numas frentes, regredimos noutras… Falta ainda quebrar muito preconceito. Ate já.







Saudações.

João Nuno Mineiro